Gari, pedreiro, 'boia-fria' e atleta! Antonio Nunes corre para vencer os obstáculos da vida

13/07/2015 11:11
Foto: Arquivo pessoal/Facebook
 
Da reportagem/VaiCorrendo.com
 
Longe da fama, dos holofotes e dos altos prêmios que propiciam uma vida confortável. Entretanto, muito próximo do pelotão de elite, figura constante nos pódios da região de Ribeirão Preto e com uma vontade gigantesca de vencer. São esses atributos que Antonio Nunes Evangelista carrega diariamente na tentativa de revirar a sua história.

Foto: Arquivo pessoal/FacebookNordestino humilde, Antonio Nunes deixou o município de Senador Pompeu, no Sertão do Ceará, com o sonho de melhorar a condição de vida. Apoiou-se ao esporte, especificamente às corridas de rua, mas se vê obrigado a encarar um trabalho nada fácil para sobreviver. Além colocar a mão na massa como servente de pedreiro nas horas vagas, o atleta de elite regional atua como separador de lixo reciclável de caçamba, profissão que ele prefere chamar de "gari".
 
"Hoje eu sou gari. Nos feriados, trabalho como servente de pedreiro. Mas já fiz de tudo. Durante nove anos fui cortador de cana", conta o corredor, revelando já ter trabalhado como "boia-fria" e que atualmente mora em Santo Antônio da Alegria, na região de Ribeirão Preto, interior paulista. "Eu empurro caçambas, rasgo sacolinhas, separo lixos, fardos de papelão... Enfim, faço de tudo das 7h da manhã até às 4h da tarde. Só olhando de perto para você acreditar como é. Mas não dá para sobreviver do meu serviço, então digo que vivo da corrida. É quando eu ganho um pouco de dinheiro. Meu sonho, mesmo, é conseguir uma ajuda para correr", completa.
 
Foto: Arquivo pessoal/FacebookAntonio Nunes, aos 38 anos, se orgulha por ter resultados expressivos nas pistas de corrida. Em junho deste ano, ele completou os 10 km da Corrida Integração de Ribeirão Preto em 32min37s, um pace de 3min15s por minuto que lhe rendeu o 17º lugar geral (15º entre os brasileiros) e segundo na categoria. O batalhador tem como melhor marca nos 10.000 metros o tempo de 31min20s conquistado na Corrida de Jardinópolis de 2013 (5º lugar). Já foi campeão de diversas provas e também corre os 5 km na casa dos 15min - vice-campeão da 6ª Corrida São Martinho, em 2014, com 15min04s.
 
Em provas mais longas, completou os 21 km da Meia Maratona de Goiás, em maio, com o tempo de 1h13min. "Essa foi difícil. Até o tempo dos quenianos foram altos". Já no trecho de 42.195 metros, fez a Maratona Internacional de Maurício de Nassau de 2011, em Recife (PE), com o tempo de 2h46min11s (27º lugar). "Foi a minha única maratona. Eu estava sem treinar", brinca o corredor.
 
Para conseguir viajar, outra dificuldade. Sem dinheiro, Antonio Nunes sai às ruas pedindo ajuda para competir. "Sempre que viajo para correr é porque consegui juntar dinheiro ou sai pedindo uma ajuda nas casas e lojas. De 100 pessoas que falam 'não' surgem duas que dizem 'sim'. E assim vai".
 

"Empurro caçambas, rasgo sacolinhas, separo lixos, fardos de papelão... Mas não dá para sobreviver do meu serviço, então digo que vivo da corrida. É quando eu ganho um pouco de dinheiro. Meu sonho, mesmo, é conseguir uma ajuda para correr"

Antonio Nunes Evangelista
Gari e atleta de elite

 
 
Foto: Arquivo pessoal/FacebookLonge dos pais e sem dinheiro
O gari-atleta está na região de Ribeirão Preto desde 1997, quando deixou Senador Pompeu (CE) para arriscar a sorte em Santa Rosa de Viterbo. Depois ainda morou em Porto Ferreira, onde conheceu o atletismo, até chegar a Santo Antônio da Alegria. Dona Maria Guedes da Silva e "seo" Francisco Nunes Evangelista ficaram no Sertão do Ceará. Já são quase quatro anos sem ver mãe e pai. "Não tenho condições de visitar a minha mãe. Lá é uma região muito pobre e meu dinheiro é contado".
 
Pai de um casal - Wesley Nunes, de nove anos, e Ellen Nunes, de cinco -, o atleta cearense ganha aproximadamente R$ 1 mil por mês separando lixo na caçamba, dinheiro que é repassado em boa parte para a ex-mulher através de pensão alimentícia. "Me sobra R$ 80 para comer. Às vezes, quando 'pego' dinheiro de corrida, consigo me alimentar melhor. Além da pensão, pago aluguel para morar. Hoje vivo sozinho. Eu e Deus", conta Antonio Nunes.
 
 

"Me sobra R$ 80 para comer. Às vezes, quando 'pego' dinheiro de corrida, consigo me alimentar melhor. Além da pensão, pago aluguel. Hoje vivo sozinho"

Antonio Nunes Evangelista
Gari e atleta de elite

 
 
Foto: Arquivo pessoal/FacebookO amor pelo esporte
Antonio Nunes começou a correr aos 26 anos, quando chegou a Porto Ferreira, em 2003. "Os colegas de lá, do Clube Porto Ferreira, me apresentaram a corrida, então comecei. Hoje eu só não melhoro mais nas provas porquê não tenho condições de comprar as vitaminas [suplementos alimentares]. Elas são caras. Com as corridas, consigo tirar mais R$ 500, R$ 300 por mês. Às vezes não ganho nada, aí bate a tristeza".
 
O atleta cearense, radicado no interior paulista, em meio à vida dura de separar lixo de caçamba e de manusear enxada e cimento, está confiante em mais um pódio na 7ª Corrida da Emancipação de Pitangueiras, neste domingo (19). Depois, disputará a sua segunda maratona: a 8ª Maratona Internacional de Foz do Iguaçu (PR), no dia 27 de setembro.


Fotos: Arquivo pessoal
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CONFIRA O VÍDEO, GRAVADO PELO PRÓPRIO ATLETA, EM QUE ELE PEDE AJUDA.
Contato com Antonio Nunes: (16) 9-8105-9556