Série Tipos de Pisada: Calçados com mais amortecimento são melhores?

04/06/2014 11:24
Prof. Aroldo Costa Neto*
 
Finalizando a nossa série sobre os principais tipos de pisada e suas implicações para a postura, hoje discutiremos sobre “amortecimento” e os tipos de calçados existentes. Atualmente observamos um número crescente de lesões associadas à corrida. Isso ocorre devido ao aumento substancial do número de praticantes sem experiência prévia, como já discutido na primeira coluna do Fala, professor!
 
Muitos dizem que para correr necessitamos de um bom calçado. Por ser uma frase muito simplória, grande parte das pessoas que a escutam tendem a pensar que um tênis com excelente sistema de amortecimento e, consequentemente, alto valor de investimento, seja a melhor solução para prevenir lesões. O problema é que na maioria das vezes este é o principal fator de lesões.
 
Já parou para pensar que nossos antepassados não usavam nada nos pés? Não estou dizendo para todos ficarmos descalços agora e sairmos para correr, mas vamos a uma breve experiência prática. Aqueça o seu corpo, retire os seus calçados e corra 10 segundos em uma velocidade média para alta. Mais de 90% dos que tentarem fazer isso irão correr com uma mecânica diferente daquela de quando estamos calçados, sim, com a parte mais anterior do pé, muitas vezes sem encostar o calcanhar no solo. Impressionante? Não... biomecânico e fisiológico!
 
Quando estamos descalços o nosso sistema sensorial (resumindo bastante, que une a percepção do sistema nervoso central com os receptores da planta do pé) informam muito melhor o posicionamento do nosso corpo (pé, tornozelo, perna, joelho, coxa, quadril...) para o nosso cérebro, que automaticamente determina pequenas alterações para executarmos esta tarefa. Neste caso particular, “transfere” a fase de apoio no solo sobre o ante pé, este dotado de uma excelente biomecânica de amortecimento para o nosso corpo (o formato do pé é anatomicamente projetado para iniciarmos o amortecimento quando tocamos o solo), flete um pouco mais o joelho e diminui a passada.
 
Como exemplo: não realize, apenas imagine você descalço saltando para cima o mais alto possível e aterrissando primeiro com os ante pés, ou fazendo o mesmo e aterrissando antes com os calcanhares. Percebe que temos até aflição de pensar em devolver todo o peso do salto para os calcanhares?
 

É isso que ocorre quando corremos com calçados fechados dotados de amortecimento, jogamos todo o primeiro impacto para o calcanhar e perdemos esse “medo”. Isso só ocorre devido ao nosso sistema sensorial “perder” a capacidade de percepção do posicionamento do pé e seus pontos de pressão e impacto. 
 
Algumas empresas de calçados, pensando na biomecânica da corrida, criaram uma linha denominada “minimalista” de calçados para corrida, sem sistema de amortecimento e que preserva as principais funções do nosso pé. Funcionam para algumas pessoas, para outras não (principalmente aquelas que possuem pisada Pronada ou Supinada, pé cavo e plano, entre outros). Também necessitam de TREINAMENTO E VIVÊNCIA antes de serem adotados para aqueles que possuem o corpo com as características ideais para este calçado.
 
Com comprovação científica recente os calçados minimalistas realmente geram menor impacto nas articulações de membros inferiores quando comparados com tênis fechados com amortecimento, porém, ainda não se sabe se outras estruturas podem começar a ser sobrecarregadas (como os músculos da panturrilha, que passam a trabalhar muito mais do que com os calçados com amortecimento). Esta é uma discussão que poderia ir muito longe, mas deixo como reflexão.
 
Para terminarmos, antes de sair para correr ou para comprar um calçado novo para corrida, converse com o seu Educador Físico para melhores esclarecimentos sobre o tema. Hoje existem várias empresas de análise de pisada, pontos de pressão nos pés, elaboração de palmilhas de atenuação e correção, análise de padrão de corrida, que garantem, agora sim, menor incidência de lesões por escolha correta do calçado.
 
Obrigado por acompanharem esta nossa série, agradeço por todo feedback online e pessoalmente!
 
Forte abraço e até a próxima!
 
*Colunista do VaiCorrendo.com, Aroldo Costa Neto é fisioterapeuta e educador físico
na academia Studio F3 Corpo Inteligente, em Ribeirão Preto
CREFITO-3: 32.583 - F / CREF: 042.260 - G/SP