Dez motivos que fazem a São Silvestre ser maior que as provas melhores

27/12/2019 14:03
Rafael Gonçalves*
 
Quanto mais o tempo passa, mais cara ela fica. Entregando para o consumidor, praticamente, o mesmo produto. Uma camiseta simples, um pacote de café moído e prensado, protetor solar, carboidrato em gel e uma ou outra barrinha de cereal. Como pode a São Silvestre de São Paulo ser tão cara em relação às demais provas que consideramos melhores na entrega de produto e na estrutura oferecida, como uma Maratona do Rio de Janeiro, por exemplo?
 
Neste dia 31 farei a minha oitava São Silvestre seguida, de 2012 a 2019. Dentro da "Lei da Oferta e da Procura" e com base no histórico recente das minhas participações, não me surpreendo ao ter se deparado com a inscrição a R$ 197,50 - embora já esteja curioso para saber o valor que será cobrado na histórica 100ª edição, em 2024 (arrisca aí?).
 
Existem inúmeros fatores que fazem a São Silvestre ser gigante, maior que as melhores, apesar de alguns pontos negativos e de muita gente leiga, que não é do meio da corrida, tratar a prova como se ela tivesse mais importância que uma ultramaratona. Vou listar 10 motivos e você pode debater, comentar aí embaixo ou na sua rede social. Vamos lá.
 
 
• 1 | Olhamos somente para o nosso nariz quando falamos em São Silvestre. Esquecemos que existem profissionais do mais alto nível do atletismo mundial que competem em busca do prêmio de R$ 94 mil para os campeões (até R$ 4 mil para o 10º colocado) e da fama, vide Emerson Iser Bem, conhecido mundialmente por ter vencido Paul Tergat; e a nossa Maria Zeferina Baldaia, que ganhou notoridade nacional na SS de 2001. Ou seja, não é uma "prova qualquer", feita para nós, amadores. Ela valoriza o profissional e nos permite estar no mesmo eixo de 15 km que um queniano de categoria Platinum, Gold, Silver e Bronze, embora dificilmente iremos vê-lo no percurso - a não ser que você corra no pace deles (risos).
 
• 2 | A São Silvestre é um belíssimo exemplo da diferença entre "preço" e "valor". Alguns produtos, algumas corridas, têm preço. Outras têm valor. O valor agregado é muito grande, a marca é muito forte. Você não investe somente no kit, na estrutura e na medalha. Você sente-se valorizado ao participar de uma São Silvestre, em São Paulo. Irá usar a camiseta semanas depois, por mais feia que seja, só pelo orgulho de tê-la corrido. É o emocional entrando em ação. A prova agrega valor, tem o valor de mercado. Mas, claro, depende de como você encara isso.
 
• 3 | Por falar em sentimentos e valor agregado, o fato de percorrer 15 km em ruas e avenidas da maior cidade do Brasil no último dia do ano, horas antes de festejar o réveillon em família, traz toda uma mística durante a prova. Vejo gente pagando promessa, outros buscando algum tipo de superação, alguns rezando durante a prova toda, tirando foto, gritando, cantando... Coisas que só se vê em São Silvestre, que aliás está na 95ª edição, uma das mais antigas do País.
 
• 4 | Não adianta ir contra. Há alguns anos a São Silvestre tornou-se referência em corrida de rua. Não é de hoje. Por isso alguns confundem dando mais importância para os 15 km do dia 31 de dezembro do que para uma prova de 42 km durante o ano. Isso não foi do dia para a noite. Foi conquistado por quem criou e batalhou para que o evento se tornasse gigante. É e continuará sendo a maior corrida do Brasil. Repito, maior que as melhores. Acostume-se.
 
• 5 | A transmissão ao vivo da Rede Globo, em canal aberto nas últimas décadas, colaborou para essa grandeza da "SS". Que eu saiba, é a única corrida de rua transmitida para todo o Brasil há mais de 25 ou 30 anos. E todo mundo que corre fica doidinho para dar um "oi" quando vê a grua na Avenida Paulista.
 
• 6 | Por falar em mídia, no sexto tópico já entra minha experiência como jornalista, editor de jornal, etc. A notícia não para e colocar o jornal na banca (ou atualizar o site, nos dias de hoje), preparar a pauta da TV e do rádio, é necessário. Não há nada rolando entre os dias 30 de dezembro e 1º de janeiro. Logo fala-se da São Silvestre. Ela "corre a passos largos" na mídia esportiva nesta época do ano. Assim, é mais falada e mais comentada. É a única pauta - e com merecimento, tem o seu peso.
 
• 7 | Tem o seu peso e é gigante por concentrar quase 40 mil pessoas, incluindo corredores do mundo todo e africanos que correm mais rápido do que eu de bicicleta. Evento de corrida no Brasil com essa quantidade de gente existe, mas é raro. Inclusive, imagine você organizar uma prova de 15 km em São Paulo com quase 40 mil pessoas, em que uma vírgula errada é motivo de duras críticas?! E ainda tendo que suportar os espertões que fraudam os números e cortam caminhos.
 
• 8 | E a tal Brigadeiro? Tem corredor que encara a longa subida como o grande momento do ano. Dependendo da preparação durante a temporada e do nível em que você esteja, a Brigadeiro Luis Antônio nem assusta tanto. Mas é um momento único para muita gente - outra vez, o valor agregado em cena. O dia que tirarem essa subida a prova perderá parte do brilho.
 
• 9 | Aí você chega na Avenida Paulista de novo, termina a prova. E, enfim, recebe aquele objeto guardado a sete chaves. A medalha da São Silvestre nunca "vaza na rede". Você só fica sabendo como ela é ao terminar a prova. Convenhamos, sempre muito bonita, valorizando seu esforço e até o valor pago pela inscrição. A medalha vale a pena. Pelo menos valeu nas últimas sete que eu completei.
 
• 10 | Quem gosta de uma ceva bem gelada, começa a festa de Ano Novo logo cedo, depois da prova. Os que voltam em turma, de Van ou Ônibus, já separam o fardinho como se fosse ele a medalha (que volta na viagem no pescoço, com um baita orgulho). Esse último tópico é só para que você perceba que uma prova gigante - e que custa caríssimo em relação às outras - é o centro de um momento bacana com seus amigos. Mais uma vez, ela agrega valor, sentimento, alegria e prazer. Por essas e outras a São Silvestre é maior que as melhores.
 
Ótima prova caso você esteja entre os inscritos. Divirta-se, passeie. Esqueça pace. Curta o momento. Excelente 2020 a todos. Grande abraço.
 
 
*Rafael Gonçalves é jornalista de formação especializado em esportes. Já atuou em rádio e jornal como repórter, apresentador e editor; cobriu Copa do Mundo e dezenas de eventos esportivos. Corredor amador desde 2010 com 229 provas oficiais concluídas, é sócio-diretor do VaiCorrendo.com e da FollowX Comunicação.
 
 
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